Era noite de domingo quando minha mãe me
mandou ir à padaria comprar pão para o café da manhã de segunda-feira. Peguei
minha bicicleta que quase nunca ando nela e fui.
Andava vagarosamente aos “pulinhos” por causa do calçamento de pedras,
dobrei a esquina e passei em frente a uma antiga escola que há pouco tempo foi
transformada em um pólo universitário (UAPI), foi quando vi um menino de
cócoras na calçada perto de um telefone público. Ele era pequeno, parecia ter
uns dez anos, estava quebrando alguma coisa no chão, usando umas pedras soltas
da calçada, ele as batia com muito cuidado.
Apesar de existir um poste de energia elétrica ali, na calçada, não dava
para enxergá-lo direito, pois ele estava escondido na sombra arredondada do
telefone público. Tudo estava iluminado. A calçada, a rua, só ele estava naquela pequena escuridão.
A princípio não estranhei ao ver aquela imagem, continuei pedalando,
andei por mais alguns metros quando passei em frente a uma casa onde duas
mulheres sentadas confortavelmente na calçada observavam de longe o menino
enquanto conversavam:
- Viu? Eu não disse?Olha o jeito com que ele
bate as pedras!
- Meu
Deus! Não pode ser verdade!
Naquele instante percebi o que realmente
estava acontecendo ali, fiquei chocada, olhei para trás sem parar de pedalar e
por alguns segundos ainda pude ver aquela criança. Tentei enganar a mim mesma
pensando que talvez ele estivesse só brincando de alguma coisa, mas a realidade
caiu sobre mim.
Tentei
imaginar o que se passava na cabeça daquele menino naquele momento. Quem teria
dado aquilo para ele? Sei que isso não ocorre só aqui na minha cidade, existem
lugares muito piores, mas ver é diferente de ouvir falar. É desumano! Quando
isso vai acabar?
Aqui em Castelo do Piauí o que não falta é combate às drogas. Esse
assunto é muito abordado nas escolas, nos meios de comunicação, entre pais e
professores, palestras são realizadas pela prefeitura e etc. Na minha escola
até houve há pouco tempo um projeto
relacionado às drogas cujo nome era: “Drogas: UEPO por dentro do assunto”.
Mesmo com tanto esforço os casos são cada vez mais comuns. Esse problema parece
não ter fim.
Na volta para casa passei naquele mesmo lugar, o menino já não estava
mais lá. Para onde pode ter ido aquele menino? Penso que nem eu, nem aquelas
mulheres da calçada e nem ninguém sabe. Penso que o próprio menino não sabe.
Talvez ele esteja por aí, em outro canto escuro da cidade quebrando as
“pedrinhas” que destroem a sua infância.
Gabriela
Soares Milanez
Profª:
Rosilene Lima
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