terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Quebrando pedras, quebrando a infância


         Era noite de domingo quando minha mãe me mandou ir à padaria comprar pão para o café da manhã de segunda-feira. Peguei minha bicicleta que quase nunca ando nela e fui.
        Andava vagarosamente aos “pulinhos” por causa do calçamento de pedras, dobrei a esquina e passei em frente a uma antiga escola que há pouco tempo foi transformada em um pólo universitário (UAPI), foi quando vi um menino de cócoras na calçada perto de um telefone público. Ele era pequeno, parecia ter uns dez anos, estava quebrando alguma coisa no chão, usando umas pedras soltas da calçada, ele as batia com muito cuidado.
        Apesar de existir um poste de energia elétrica ali, na calçada, não dava para enxergá-lo direito, pois ele estava escondido na sombra arredondada do telefone público. Tudo estava iluminado. A calçada, a rua, só ele  estava naquela pequena escuridão.
        A princípio não estranhei ao ver aquela imagem, continuei pedalando, andei por mais alguns metros quando passei em frente a uma casa onde duas mulheres sentadas confortavelmente na calçada observavam de longe o menino enquanto conversavam:
       - Viu? Eu não disse?Olha o jeito com que ele bate as pedras!
       - Meu Deus! Não pode ser verdade!
        Naquele instante percebi o que realmente estava acontecendo ali, fiquei chocada, olhei para trás sem parar de pedalar e por alguns segundos ainda pude ver aquela criança. Tentei enganar a mim mesma pensando que talvez ele estivesse só brincando de alguma coisa, mas a realidade caiu sobre mim.
        Tentei imaginar o que se passava na cabeça daquele menino naquele momento. Quem teria dado aquilo para ele? Sei que isso não ocorre só aqui na minha cidade, existem lugares muito piores, mas ver é diferente de ouvir falar. É desumano! Quando isso vai acabar?
        Aqui em Castelo do Piauí o que não falta é combate às drogas. Esse assunto é muito abordado nas escolas, nos meios de comunicação, entre pais e professores, palestras são realizadas pela prefeitura e etc. Na minha escola até houve  há pouco tempo um projeto relacionado às drogas cujo nome era: “Drogas: UEPO por dentro do assunto”. Mesmo com tanto esforço os casos são cada vez mais comuns. Esse problema parece não ter fim.
         Na volta para casa passei naquele mesmo lugar, o menino já não estava mais lá. Para onde pode ter ido aquele menino? Penso que nem eu, nem aquelas mulheres da calçada e nem ninguém sabe. Penso que o próprio menino não sabe.
        Talvez ele esteja por aí, em outro canto escuro da cidade quebrando as “pedrinhas” que destroem a sua infância.

Gabriela Soares Milanez
Profª: Rosilene Lima

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